A barrica inteligente
Isto é o que gostariam de ter todos os enólogos. Uma barrica na qual pudéssemos meter um vinho e, após o tempo de estágio, termos um vinho fantástico, com muita fruta, bem equilibrado, igualmente casado com a madeira, complexo e elegante.
Tudo isto é possível mas, evidentemente, só se o vinho reunir as condições para alcançar o nosso objectivo. Além disto, a gestão do estágio deve ser perfeitamente adaptada cada ano em função das características do vinho. Quantas vezes perdemos todo o potencial de um vinho ou desaproveitamos grande parte dele por uma má gestão na adega?
Tal como não podemos delegar a responsabilidade da educação dos nossos filhos à escola, também não podemos delegar a responsabilidade da qualidade dos nossos vinhos à barrica.
É importante considerar a qualidade da secagem da madeira, a sua procedência, o nível de tosta, mas é muito mais importante fazer as seguintes considerações: um vinho pode ser gerido de múltiplas maneiras no seu estágio, obtendo um ou outro resultado.
Periodicidade do atesto das barricas.
O atesto das barricas é determinado em função da idade da barrica. Uma barrica nova absorve mais vinho e uma barrica velha menos.
Por outro lado, a reactividade do vinho face ao oxigénio será maior quanto mais jovem for e menor quanto mais velho.
Um atesto da barrica pode ser muito bom ao princípio, ou então nefasto, basta oxidar o vinho, se for feito tarde.
É interessante também considerar o tempo que pretendemos ter o vinho em estágio. É provável que para estágios mais curtos atestar menos ajude o vinho a evoluir mais rapidamente, enquanto, pelo contrário, para estágios mais longos devemos ter as barricas cheias.
Gestão das trasfegas:
O intercâmbio de oxigénio através da barrica nova é totalmente diferente do que ocorre numa barrica velha. Portanto, a evolução do vinho será também diferente.
A limpidez do vinho também determinará o número de trasfegas. Mais trasfegas quanto mais sujo chegue o vinho às barricas.
Ao longo da vida do vinho podemos ver também a sua necessidade em oxigénio. Se a tendência é mais ou menos redutora.
É também conveniente gerir os vinhos por variedades desde a vindima, passando pela elaboração e finalizando no estágio. Cada vinho tem as suas qualidades e comportamentos distintos.
Cada tanoaria tem as suas qualidades e seria conveniente conhecê-las perfeitamente e aproveitar as vantagens de cada uma delas.
Tempo de Estágio:
O balanço vinho/madeira dependerá do estilo de vinho previamente definido.
O tempo será bem definido pelos processos anteriores e pelas características do vinho, mas será o enólogo a determinar o momento óptimo para tirar os vinhos da barrica em função dos objectivos.
Sem querer entrar em polémicas, é o vinho que nos deve indicar o tempo e não as normativas dos conselhos reguladores. Pelo contrário, não devemos levar à barrica aqueles vinhos que de antemão sabemos que não vão suportar as especificações do conselho regulador ao qual pertencem.
O que pretendo transmitir é que o estágio em barrica não é uma receita em que o vinho está sempre na madeira um tempo bem definido e nas mesmas circunstâncias ano após ano. Os vinhos mudam cada vindima e o trabalho deve ser adaptado cada ano.
Apesar do que diz o título, as barricas não são inteligentes.
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