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Dois artigos chamaram-me a atenção esta semana. O primeiro aparece em “La Semana Vitivinícola” com o título “Viña, productividad y defectos” [.pdf], e é de Manuel Ruiz Hernández.  O artigo fala sobre os resultados de um estudo comparativo na avaliação sensorial de vinhos tendo por base o rendimento de uva por hectare. Rendimentos de 5,5 ton/ha em comparação com rendimentos de 10 ton/ha. O segundo chega através de El Diario Vasco: ¿Qué nos depara el 2010? Trata-se de um artigo acerca das tendências no mundo do vinho.

Crise e vinho, um tema recorrente que pode conduzir a enganos se não separamos o grão da palha. Refiro-me ao facto de que o vinho já vivia a sua própria crise antes de estalar a crise global. Recentemente ouvi o meu irmão Xabier dizer que “a crise é como ir num avião que se está a estilhaçar, e ninguém sabe onde ir nem como resolver a situação”. Se estilhaçará o avião? Uma leitura pessimista destes dois artigos pode fazer-nos pensar que sim. Como podemos salvar um sector no qual o consumo nacional diminui, os preços baixam, a qualidade deve melhorar e a produtividade não pode aumentar?

Ainda que eu esteja de acordo com o que é dito nos dois artigos, quero contar a nossa experiência particular neste campo.

É certo que os estilos de vinhos produzidos com distintas produções não podem ser iguais, mas também é certo que as matérias-primas ao serem diferentes não podem sofrer o mesmo tratamento nos dois casos. Isto é, o método de vinificação deve ser muito diferente. Portanto, ainda que os estilos de vinho não sejam iguais, ambos podem ser muito equilibrados, ter boa aceitação e serem livres de defeitos. Cada um com o seu equilíbrio quanto à gordura, doçura, acidez, estrutura e volume, e cada um com o seu estilo, mas ambos bons.

Para o consumidor é mais agradável um vinho bem equilibrado de alta produtividade, que um desequilibrado de baixa produtividade, sempre e quando for bem elaborado. O post do meu irmão acerca de El Buen Vino proporciona algumas chaves.

Esta semana contar-vos-ei como vejo actualmente esta questão.

Cartografia dos vinhos espanhóis

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Ao longo dos últimos 10 anos construímos 5 painéis de provadores em grande parte da geografia espanhola (Rioja, Catalunha, Aragão, Navarra, Castela e Leão, Levante e Múrcia). São aproximadamente 130 enólogos.

O objectivo era formar enólogos na análise sensorial de acordo com a metodologia do professor Maurice Chassin da empresa Communication, Qualité, Formation par la Dégustation (CQFD Gustation).

Durante os primeiros anos juntávamo-nos 3 vezes por ano, nos últimos três anos 2 vezes. O trabalho inicial consistiu em estabelecer referentes ou marcadores comuns e, posteriormente, com os painéis bem coordenados, começámos a provar vinhos experimentais dos nossos diferentes ensaios. Vinhos microoxigenados, diferentes datas de vindima para as mesmas parcelas, influência das diferentes técnicas de vinificação e perfis aromáticos da madeira.

Também estudamos os distintos estilos aromáticos de vinhos classificados pelo CQFD a partir de vinhos referentes: fermentais, terpénicos, oxidativos, redutores, madeirados e ricos em pirazinas.

O maior interesse para o enólogo é poder actuar logo na sua adega em função do modelo coerente de elaboração que corresponde a cada família ou estilo de vinho. Por exemplo: um estilo redutor não se trasfega com ar, um estilo rico em pirazinas não se elabora a partir de Termovinificação, um estilo fermental é conseguido em determinadas condições de fermentação (levedura, temperatura, turbidez, nitrogénio assimilável).

Em 2009 utilizamos estes painéis para fazer uma “fotografia” dos distintos vinhos elaborados em Espanha. Como noutras ocasiões, para coordenar os painéis primeiro provamos vinhos genéricos em todas as regiões e depois em cada zona os vinhos das suas regiões específicas.

A ferramenta estatística utilizada é a Siryel, uma tecnologia inovadora desenvolvida pela Vivelys, e que consiste numa caneta equipada com uma câmara numérica que grava os dados das provas e que são depois enviados para um programa de estatística normalizado. Uma vez feito o tratamento dos dados, reunimo-nos para os interpretar e para tirar conclusões que são disponibilizadas num boletim informativo.

Conclusões:

Depois de 10 anos de trabalho alcançamos um nível de equivalência dos 5 painéis de enólogos (mais de 130) muito aceitável.

Deste modo podemos tirar conclusões claras quanto à personalidade de certos vinhos produzidos em várias zonas de Espanha. Ainda que a Enologia tenha a sua marca comum em muitos vinhos, como é o caso dos aromas fermentais e também da madeira, existem tendências muito fortes e estáveis próprias das vinhas: frescura ou madurez da fruta, tendência redutora, etc.

A realização destas provas também foi uma oportunidade para os enólogos terem os seus vinhos provados às cegas por um painel especialista, podendo assim classificá-los de maneira mais objectiva.

Esta metodologia sensorial, juntamente com a prática comum de tantos enólogos nestes painéis, permite-nos também estabelecer um diálogo técnico comum entre enólogos, mudança esta importante nestes últimos anos, necessário para o desenvolvimento de uma Enologia moderna e razoável em Espanha.

Aproveito a ocasião para agradecer a colaboração de todos os enólogos que participam nestas provas connosco.

O bom vinho

Buen Vino

Hoje em dia as empresas que querem viver a vinha e o vinho devem ter uma clara orientação para o mercado e, portanto, para os consumidores. Para isto precisamos de estudos sérios de investigação de mercado sobre o perfil de produto necessário. Sem esta informação precisa, cometemos muitas vezes o erro de deixar a decisão do perfil do produto nas mãos do enólogo, do departamento comercial ou da gerência. Estas decisões unilaterais têm mais inconvenientes que vantagens, pelo que, penso que uma decisão tomada a partir de um marketing mix coerente nos ajuda a alcançar um maior nível de professionalidade dentro da empresa.

Um ponto importante que se deve considerar na elaboração de um vinho é o estudo e a análise da nossa concorrência, e a observação da sua evolução, adequando as novas ferramentas de trabalho ao nosso alcance. Estas ferramentas devem ser baseadas numa viticultura e numa enologia com critérios científicos.

No momento de qualificar um vinho como “BOM VINHO” é-lhe exigido que cumpra requisitos mínimos bem definidos.

  • Segurança para a saúde do consumidor.
  • Perfil comercial.
  • Perfil sensorial.
  • Critérios enológicos necessários.

Devemos saber responder a estes quatro critérios, se assim não for estaremos num estado de debilidade e, portanto, distantes de fazer o “BOM VINHO”.

PERFIL SENSORIAL

Os métodos de análise sensorial ajudam-nos a definir perfis de vinho em função dos objectivos desejados.

O vinho deve agradar ao mercado, ainda que às vezes seja útil manter uma certa distância ao gosto pessoal do enólogo, do proprietário ou do comercial.

Na avaliação do perfil sensorial deve-se ter em conta:

  • O perfil do vinho na saída para o mercado
  • A longevidade do vinho no tempo

Como perfil sensorial é necessário definir os descritores e saber quais deles o consumidor avalia positiva ou negativamente.

a) Descritores positivos:

Visual: Cor vermelha e azul (violáceo)

Olfactivo: Fruta fresca ou madura, madeira (tosta, aumenta a intensidade), especiarias e mineral.

Gustativo: Maior ou menor volume, gordura, doçura, acidez e intensidade tánica. No seu conjunto HARMONIA.

b) Descritores negativos:

Visual: unicamente cor vermelha, telha ou castanha.

Olfactivo: Compostos enxofrados, químico, herbáceo ou vegetal, animal.

Gustativo: Excesso de taninos (adstringência), secura (tanino da madeira), excesso de acidez e amargor. No seu conjunto DESEQUILÍBRIO.

A longevidade do vinho no tempo: manter a cor azul (violeta), manter a fruta e o volume em boca e a diminuição da adstringência.

Estes elementos mudam muito em função da variedade e da vinificação, o vinho é um ir e vir contínuo entre onde chegar e como trabalhar a uva e o vinho.

CRITÉRIOS ENOLÓGICOS

A maneira de elaborar o vinho e a qualidade da uva são passos obrigatórios que no futuro nos vão permitir chegar aos dois objectivos anteriores (perfil do vinho na saída para o mercado e longevidade no tempo).

Para o êxito de um vinho como BOM VINHO é necessário trabalhar com técnicas actualizadas e aprovadas cientificamente, ter argumentos para escolher uma técnica ou outra em função dos objectivos comerciais e sensoriais propostos, saber actuar com rapidez e actualizar-se, manejar o desenvolvimento das potencialidades da uva e os riscos e manter sempre a coerência…

Elaborar vinho é fácil, elaborar UM BOM VINHO CUSTA MAIS.

Feliz natal

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Esta data é muito propícia aos excessos gastronómicos. Comemos e bebemos mais que o habitual.

São dias também bons para a reflexão, para fazer um balanço do ano decorrido, mas também para a ilusão.

Não devemos perder esta ilusão durante todo o próximo 2010.

A ilusão por: aprender, conhecer, fazer, entender, saber, partilhar, oferecer é o que nos permite avançar e melhorar em todos os aspectos da vida.

E isto é o que devemos fazer pouco a pouco, melhorar e continuar a descobrir cada dia.

Através destas linhas desejamos agradecer as vossas leituras, compreensão e participação no blog durante todo este ano. Esperamos continuar as nossas conversas convosco durante o próximo ano e, sobretudo, continuar mantendo esta paixão pelo vinho e ampliando o nosso conhecimento sobre esta grande bebida que, ao fim e ao cabo, é o que nos une.

Aproveitamos também a ocasião para desejar um Natal muito feliz e um novo ano cheio de êxitos e de saúde.

Verdor e perfil aromático vegetal na prova

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No momento de descrever um vinho falamos de conceitos como: vegetal, herbáceo ou verde.

Realmente, todos entendemos estes conceitos e sentimo-los na prova, mas muitas vezes não os expressamos da mesma maneira.

Devemos definir estas questões para nos entendermos melhor e para procurar soluções oportunas para cada caso.

Creio que os conceitos vegetal e herbáceo referem-se só ao perfil aromático do vinho, enquanto o termo verdor define melhor o estilo tánico em boca.

Em boca podemos estabelecer marcadores como a gordura, a doçura, o amargor ou a adstringência, todos eles podem orientar-nos na degustação. Mas o melhor marcador para definir a maturação fenólica da uva é o estilo tánico do vinho e definimo-lo como verde quando a maturação não é correcta.

É verdade que na maioria dos casos e, principalmente, em vinhos novos recém terminados de fermentar, o perfil aromático vegetal coincide com o estilo tánico verde. Mas isto não tem que ser sempre assim. Podemos ter um vinho vegetal com muita pirazina mas em boca pode ser totalmente maduro, sem nenhum verdor.

Quando falamos de vegetal desde o ponto de vista aromático, podemos definir aromas como: espargos, favas, pimento verde, ervilhas (2-metoxi-3-isobutilpirazina), pepino (hexanal), cogumelos (whiskylactona), batata (geosmina, 2,5-dimetilpirazina), trufa (sulfureto de dimetilo), etc.

Todos estes componentes são bastante estáveis, muitos deles permitem manter a tipicidade e o perfil varietal, e só podem ser mascarados ou complexados com outros componentes aromáticos procedentes da madeira ou da conservação do vinho através do tempo.

Em alguns casos, quando o enólogo considerar que são mais um defeito que uma virtude, também se pode utilizar carvão absorvente para os eliminar.

Por outro lado, o verdor do estilo tánico pode ser modificado com uma boa gestão durante a conservação do vinho através do tempo.

Podemos utilizar a micro-oxigenação, levar os vinhos à barrica, tratá-los com distintos clarificantes, etc., alternativas das quais falamos em posts anteriores.

Quando falamos de um estilo tánico verde referimo-nos a taninos reactivos em boca, com um certo perfil ácido e amargo no final.

Este verdor, conforme vai madurando o vinho (em boas condições de estágio), vai-se transformando num tanino mais maduro, passa a ter um perfil menos ácido (mais doce) e no final diminui a sensação de adstringência e de amargo.

Pelo contrário, se as condições de estágio não forem adequadas, os taninos continuam verdes até que se oxidem e passem directamente a secos.

Ainda que o perfil aromático vegetal possa ser interessante para uma parte importante dos consumidores de vinho, o estilo tánico verde não é agradável para a maioria.

Boa prova para todos.

Radiografia completa ao consumidor espanhol de vinho

É o título do trabalho apresentado pelo Observatório Espanhol do Mercado do Vinho (OEMV).

Dia 24 de Novembro foram apresentados os resultados dos projectos de investigação do OEMV sobre diferentes aspectos relacionados com a “identificação dos distintos consumidores espanhóis de vinho e seus hábitos de consumo”.

O objectivo fundamental é dar informação relevante através da investigação do mercado para facilitar as vendas das adegas espanholas e fomentar o consumo moderado de vinho, dando uma imagem completa do consumidor espanhol.

Podem consultar a informação completa no seguinte anexo: Jornada o consumidor de vinho espanhol.

A melhor informação que podemos ter é conhecer os gostos e os hábitos do consumidor de vinho para saber o que lhe oferecer e como satisfazer as suas necessidades.

São trabalhos como este que ajudam o sector a melhorar o consumo moderado e inteligente de vinho na nossa casa, e assim poderemos depois exportar a outros países os nossos produtos. Que país pode exportar algo sem ter um consumo próprio desse produto?

Boa leitura e melhores vendas.

O carácter vegetal dos vinhos: post nº 3

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Seguido com os nossos posts anteriores sobre este assunto, e tendo em conta a estação do ano na qual nos encontramos no hemisfério norte (logo depois da FML), quero fazer alguns comentários.

Se gerimos aspectos como a estabilidade tartárica dos vinhos, a estabilidade proteica, a matéria corante, etc. também podemos gerir o aspecto herbáceo ou vegetal dos vinhos.

Com os processos de vinificação clássicos de estágio em barrica, nos quais os vinhos podem fazer a FML em barrica e, principalmente, em barrica nova. Também se pode levar à barrica imediatamente terminada a FML quando o verdor dos vinhos não é um problema, uma vez que com a passagem do tempo este desaparece. Mas nem todos os vinhos se introduzem em barricas novas e muitos podem ficar em depósitos.

A transferência de oxigénio que ocorre através da madeira nova eliminará o verdor dos vinhos ao mesmo tempo que dará a complexidade aromática procurada.

Mas não acontece o mesmo quando os vinhos não vão à barrica ou vão a barricas velhas. Ainda que o vinho perca a sua adstringência com o tempo, o estilo tánico não muda e os vinhos continuam sendo verdes.

É certo que há uma parte do mercado à qual agradam os vinhos que denominamos varietais, pela sua tipicidade muito relacionada com o carácter aromático vegetal (pimento verde, pimenta). Por outro lado, outra parte muito considerável não os aprecia da mesma maneira, principalmente quando são verdes em boca (final amargo e um pouco mais adstringentes, com estilo tánico verde).

Como podemos reduzir o carácter vegetal em brancos?

Para a redução do carácter vegetal em brancos em vindima podemos utilizar a técnica da oxigenação controlada de mostos. Trata-se de aplicar doses de oxigénio bem conhecidas ao mosto e verificar o tempo que demora este oxigénio a ser consumido. Posteriormente, ir aplicando doses sucessivas até sabermos a dose máxima de oxigénio que podemos aplicar no mosto.

O Cracking: consiste em realizar no mosto a prática anteriormente mencionada e depois submeter o mosto a temperaturas de 70-75ºC.

Podemos comentar estes assuntos mais adiante, quando estivermos próximos da vindima.

Neste momento, uma vez elaborado o vinho diminui a percepção da fruta e os vinhos resultam fenólicos (algo secantes em boca) e um pouco mais amargos.

Este estilo de vinhos vem de parcelas de elevada produção, de vinhas sujeitas a um elevado stress hídrico ou de parcelas que têm desequilíbrios.

Um vinho branco não deve ultrapassar um nível total de 50-60 mg/l de taninos, entre 4-6 IPT.

Níveis superiores significam uma extracção importante durante a prensagem e têm tendência a uma oxidação muito rápida.

É aconselhável proteger este tipo de vinhos ao máximo de qualquer contacto com o oxigénio. Trabalhar o vinho com as borras finas de vinhos maduros pode minimizar o efeito secante, potenciar a fruta e aumentar a sua capacidade de consumo de oxigénio enquanto o vinho se mantêm turvo. Nesta altura, estes vinhos encontram-se muito frescos mas são muito instáveis à oxidação, pelo que insistimos muito sobre o aspecto de protecção face ao oxigénio.

O trabalho com as borras finas de vinhos maduros é uma prática tradicional mas em alguns casos podem ser complicado e, sobretudo, tecnicamente difícil pelos riscos microbiológicos e mão-de-obra que exige.

O uso de derivados de Leveduras é uma alternativa à técnica anteriormente mencionada mas eliminando os riscos de estabilidade microbiológica.

A clarificação com clarificantes proteicos combinada com o uso de PVPP pode ajudar-nos a reduzir um pouco o nível de taninos dos vinhos.

É conveniente realizar ensaios rápidos de clarificação para ver qual deles nos pode ajudar a conseguir o melhor equilíbrio do vinho.

Quando me refiro a ensaios rápidos de clarificação proponho:

Tratar no laboratório os vinhos com as distintas opções de clarificação que temos ou conhecemos, depois de 2 horas centrifugar os vinhos e provar. Trata-se de um ensaio rápido que nos permite em muito pouco tempo escolher a melhor opção.

Como podemos reduzir o carácter vegetal em tintos?

As distintas opções que temos para eliminar ou mascarar o verdor dos vinhos tintos são:

Como mencionamos no início do post, para os tintos elaborados de maneira clássica levados a barrica nova imediatamente terminada a FML não deve haver problema se a gestão durante o estágio for correcta.

Para o resto dos vinhos:

Micro-oxigenação entre a FA e a FML e após a FML. Esta é tecnologicamente a gestão mais eficaz. Aproveitar esta técnica durante o tempo que temos antocianas livres no vinho.

Depois desta prática poderíamos levar os vinhos à barrica.

Aplicação de taninos proantocianídicos de baixo peso molecular que polimerizam os taninos do vinho eliminando o verdor, ou taninos de elevado peso molecular que o mascaram.

Além disto, vimos que os taninos mais polimerizados jogam um papel importante na estabilização coloidal, reagindo com as proteínas e macro-moléculas do vinho e dando estrutura e redondez.

Ainda que com esta acção não modifiquemos o perfil aromático do vinho, podemos dizer que a boca fica perfeitamente equilibrada.

Aparas de roble: os polissacáridos da madeira aportam doçura. Quando sugerimos neste caso aparas de madeira, não os sugerimos como aromatizantes mas propomos madeiras de tosta média-baixa para aportar taninos bem polimerizados de madeira bem seca que mascarem os taninos verdes da uva, e que com uma mínima percepção no nariz mascarem os aromas herbáceos. Hoje em dia os mercados procuram vinhos sem madeira mas com muita madeira. Vinhos com fruta intensa, mas ao mesmo tempo redondos e gulosos em boca.

Clarificação: é uma alternativa a considerar depois das anteriores, quando a única forma que nos resta de eliminar o verdor é diminuindo a quantidade de componentes que o marcam.

É importante considerar as distintas opções apresentadas, cada uma delas com as suas peculiaridades, mas todas elas válidas para reduzir ou eliminar o verdor dos vinhos. E em função do tempo, dos meios e do custo combiná-las procurando efeitos sinérgicos adaptados a cada vinho.

Sustentabilidade em Enologia

GeotermiaOenoblog

Vivemos numa época de mudanças, até agora tinha-se somente em conta produzir mas isto vai evoluindo rapidamente. O avanço deve ser sustentável e não conta só a produção, cada vez mais tende-se a fabricar gerando o menor impacto possível no ambiente. Conjuntamente, os resíduos têm um custo económico e obrigam a um gasto de recursos por parte das entidades.

Seguindo esta linha, uma adega pôs em marcha um sistema de aproveitamento de energia geotérmica, isto é, utilizam o calor interno da terra para obter as temperaturas necessárias para a elaboração do vinho.

Deste modo, não só se consegue um menor gasto energético como se reduzem as emissões de CO2 para a atmosfera.

No anexo há mais informação acerca da utilização da energia geotérmica na elaboração do vinho.

Sobre o Godello

Olá Luís.

Continuando a conversa após os teus comentários de 5 de Outubro sobre o Godello, gostaria de fazer algumas observações:

Estou de acordo contigo em que há que ter muitas precauções nos pontos críticos aquando do engarrafamento, mas os dados que nós dispomos das nossas peritagens em adega são algo distintos dos que mencionas.

Hoje em dia há muitas adegas que inertizam ou fazem o vácuo antes do engarrafamento, mas as que não o fazem concordo contigo que deveriam aumentar os níveis de sulfuroso livre.

Ainda que o espaço vazio do gargalo da garrafa seja de 10 ml, o desprendimento de CO2 que faz o vinho ao cair na garrafa desloca uma parte do ar.

A nossa experiência demonstra-nos que numa garrafa completamente vazia, o doseamento de oxigénio ao vinho no enchimento é de 0,5 a 1,5 mg/l, quantidade muito distante da que mencionas de 3 mg. Talvez o dado que tens seja esse porque fazes os engarrafamentos muito frios.

Juntamos uma tabela das velocidades de consumo de oxigénio no vinho:

O consumo de oxigénio pelo vinho depende: do tipo de vinho, da temperatura, dos antioxidantes naturais e exógenos que contém, da estrutura fenólica e da turbidez.

Alguns exemplos do consumo de oxigénio no vinho:

Tinto limpo a 20ºC             0,12 mg / l / h

Branco limpo a 20ºC             0,0002 mg / l / h

Branco com borras a 20ºC             1,2 mg / l / h (10 vezes mais que um tinto)

Considerando os consumos que indicamos para um vinho branco limpo sem nenhuma protecção, demoraria cerca de 800 dias a consumir os 4 mg/l de oxigénio.

Isto supõe que em qualquer momento do processo de tratamento do vinho, como são a estabilização por frio, as filtrações, as clarificações ou as trasfegas, devemos ser excessivamente prudentes.

Doseamentos de 4 mg/l são muito elevados, o que implica:

  • Inertização de todos os circuitos, enchedora, etc. antes de cada movimento do vinho e posterior comprovação dos níveis de O2 com um oxímetro.
  • Verificar os níveis de sulfuroso antes de cada movimento.
  • Se os vinhos vão ser engarrafados, avinhar o circuito sem retorno ao depósito.
  • Separar as primeiras garrafas que podem ter níveis de O2 mais elevados para que saiam mais rapidamente para o mercado.
  • Separar também as últimas garrafas que também têm um teor de O2 mais importante, quando os vinhos não são empurrados com gás inerte.
  • Se for possível utilizar bomba de vácuo antes da rolhadora a -0,9 bar ou CO2.

Onda de calor

uva seca

Este verão tivemos uma onda de calor que se destacou mais pela sua duração que pela sua intensidade. Formam muitos os dias com temperaturas próximas de 40ºC. Isto provocou um adiantamento da maturação glucométrica entre 1 e 2 semanas em muitas regiões vitivinícolas da Península Ibérica, obrigando os enólogos a acelerar as previsões de vindima.

Nas regiões onde a vinha teve que suportar temperaturas elevadas juntamente com a falta de água, a maturação glucométrica e a maturação aromática juntamente com a fenólica desfasaram-se muito mais que o habitual.

Por este motivo quero recordar algumas das questões que os enólogos colocam todas as vindimas e este ano talvez mais que em outras.

É importante considerar as características da colheita e da região, da variedade e do vinho objectivo, e em função destes parâmetros definir:

Esmagamos ou não as uvas?

Maceramos os brancos?

Em tintos, macerações longas ou curtas?

Pré-macerações a frio ou termo-macerações?

Délestage, remontagem, Turbopigeur?

Atrasar a maloláctica ou iniciá-la quanto antes?

Estruturar os vinhos com taninos e madeira ou com os próprios taninos da uva?

Lotar com as prensas?

Certamente que em cada vindima temos oportunidade de poder fazer com cada tipo de uva coisas muito diferentes, obtendo distintos estilos de vinho.

Mas penso que a tendência maioritária este ano será:

Em brancos, limitar as macerações devido à elevada extractibilidade dos polifenóis ou actuar depois em consequência (absorção ou oxidação de polifenóis), e corrigir a estrutura e refrescar a gama aromática mediante o uso de leveduras e madeiras adequadas.

Em tintos de uvas desidratadas ou com bloqueio da maturação fenólica, macerações curtas e bem conduzidas favorecendo a extracção mais por dissolução (sulfuroso e enzimas) que por operações mecânicas de délestages e remontagens; forçando a extracção em fase aquosa mediante macerações pré-fermentativas a frio ou a quente, para minimizar a extracção de taninos verdes e pirazinas, ou seja, o carácter herbáceo do vinho. Depois corrigir a gama aromática da estrutura mediante a utilização de madeiras e um bom tanino elágico ou proantocianídico. Certa sangria, se a uva vem de parcelas de produções muito altas>12 ton/ha. Referimo-nos a uvas com uma maturação alcoólica de 12,5-13,5. Com uma concentração de 50 IPT.

Ter especial atenção à nutrição. Os níveis de NFA serão certamente muito variáveis, a sua correcta gestão será importante para ter fermentações constantes e completas. A fase exponencial quando bem controlada permite-nos conduzir bem a maceração e o desenvolvimento aromático dos vinhos.

Boa vindima para todos.


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